Está em plena movimentação entre países de diferentes posições geográficas e políticas a ideia plantada dois anos antes, de que nações que estabeleçam relações comerciais entre si, passem a adotar suas próprias moedas nessas trocas, ao invés de permanecerem submissas ao dólar norte-americano como regulador desses seus negócios.
Isso parece um empreendimento simples, de intercambiar o comércio de produtos e serviços sem ter que converter a moeda do país de origem para o dólar, e vice-versa. Mas não é. O plano vem sendo tocado devagar, alcançando força a partir do fortalecimento do BRICS desde a posse da brasileira Dilma Rousseff na presidência dessa instituição.
E não é fácil, porque guarda em si mesma um peso político muito significativo, pois mexe com os interesses dos Estados Unidos da América, país que tomou para si essa prerrogativa de ter o dólar como regulador mundial, desde o fim da Segunda Grande Guerra.
E se torna mais complicado ainda, diante da presença de Donald Trump na Presidência dos EUA, um governante que tem revelado a cada dia um componente autoritário e dominante na sua forma de se relacionar com o mundo.
Mas o fato é que o BRICS avança na desdolarização, ao fomentar o uso das moedas locais em transações bilaterais e começa a dar impulso ao chamado “BRICS Pay”, um sistema digital descentralizado para evitar intermediários ocidentais.
Essa é uma iniciativa que ganha corpo a partir das relações que Brasil e China vêm mantendo, sempre visando reduzir a dependência do dólar, usando o sistema “blockchain” para facilitar pagamentos, embora se saiba que a substituição plena da moeda norte-americana constitui-se um desafio de médio e longo prazo.
Sabem todos os países que desejam o fim dessa dependência do dólar que a tarefa não vai ser fácil , sobretudo porque conta com a reação e a retaliação que o presidente Donald Trump está sempre disposto a impor a quem contrariar os seus interesses.
Mas o fato concreto é que Brasil e outros membros do BRICS e também do Mercosul defendem intensamente que as transações comerciais entre eles sejam feitas de maneira direta, sem intermediação, sem rendição a uma moeda que não tenha qualquer relação com seus negócios, porque, sob essa nova prática, os países verão aumentada a sua independência financeira.
Tem ocorrido até mesmo a ideia de se criar uma moeda própria em torno dos países integrantes do BRICS, mas ao que parece o plano mais viável será mesmo adotar como troca a moeda de cada país envolvido.
Formado originalmente pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e tendo depois como associados ao grupo o Egito, os Emirados Árabes, Arábia Saudita, Etiópia e Irã, o BRICS, embora não seja um bloco comercial como União Europeia e Mercosul, representa uma aliança voltada para o desenvolvimento econômico e a cooperação política entre países classificados como Sul Global, e representa 48,5% de toda a população do planeta e perto de 30% da economia mundial, carregando o peso de 24% de todo o comércio do mundo.
Embora saibam que esse processo de substituição do dólar por moedas locais seja um processo cuidadoso e lento- apesar de já ter sinais claros de evolução-, os observadores da cena geopolítica enxergam que os países interessados nessa troca já estão revisando seus sistemas internos de liquidação, avaliando parceiros internacionais em moedas locais, ajustando compliance para novas redes de pagamento e alinhando a governança financeira para que se adequem a uma nova realidiade que está próximo de prevalecer.
Por José Osmando













