Em Alagoas, o artesanato é muito mais do que uma habilidade; é uma forma de preservar a memória coletiva e a identidade cultural. Dos 40 mestres reconhecidos como Patrimônio Vivo do Estado, 13 se destacam como guardiões dessa arte, transformando materiais em relatos que cruzam gerações. Em tempos em que o mundo parece cada vez mais acelerado, esses artesãos dedicados mantêm vivas tradições que não se limitam às palavras, mas se manifestam em cada peça que criam.
Em Boca da Mata, André da Marinheira transforma madeira em esculturas que reverberam por todo o Brasil. Claudeonor Higino, em Penedo, perpetua a tradição da escultura sacra, enquanto Dona Irinéia, no Muquém, em União dos Palmares, utiliza o barro como extensão da rica vida quilombola, criando peças que narram história e resistência.
No Pontal da Barra, em Maceió, Dona Nete borda o filé com a delicadeza de um contador de histórias, e em São Sebastião, Maria de Clarice se empenha em transmitir o ofício da renda de bilro às novas gerações. Em Marechal Deodoro, Dona Moça preserva a elegância da renda labirinto, e em Piaçabuçu, Dona Lourdes transforma retalhos em bonecas que viajam pelo país.
A arte do barro ganha nova dimensão nas mãos criativas de João das Alagoas, em Capela, onde tradição e inovação se entrelaçam. Em Rio Largo, Pedrocas esculpe troncos, deixando que a madeira conte sua própria poesia. Marta Arruda se destaca por sua inventividade, enquanto Sônia Maria de Lucena, na Barra de Santo Antônio, transforma o bordado da renda singeleza em fonte de renda e apoio comunitário. Em Maceió, Vânia Oliveira combina tradição e consciência ambiental em suas criações.
No sertão, o mestre Rubério de Oliveira Fontes esculpe memórias do Velho Chico em miniaturas, cada detalhe reverberando com a história local. “Sinto-me muito feliz com o dom que recebi e tenho a vontade de transmitir meu conhecimento”, diz Rubério, refletindo sobre uma vida dedicada à arte e ao aprendizado.
Para esses mestres, compartilhar saberes é fundamental. A mestra Sônia, que começou a bordar em um momento difícil, agora ensina outras mulheres. “Hoje, ajudo outras pessoas a aprender e a seguir em frente”, destaca. Da mesma forma, Vânia vê no artesanato um caminho de luta coletiva e um legado a ser passado: “O importante é fazer e ensinar.”
A Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas reconhece que o diálogo com o artesanato é crucial para a cultura local, estabelecendo conexões entre mestres e a população. A secretária Mellina Freitas ressalta que, mesmo que o artesanato não seja o foco principal da secretaria, ele permeia diversas ações culturais e parcerias com outros programas do estado.
A Lei Estadual nº 6.513/2004, atualizada pela Lei nº 7.172/2010, institui o Registro do Patrimônio Vivo, que não só reconhece os saberes como também incentiva sua continuidade. Para ser reconhecido, o candidato deve ter uma trajetória de pelo menos 20 anos em Alagoas, além de um compromisso em ensinar e compartilhar seu conhecimento.
Esses mestres não só se tornam parte do Livro do Registro do Patrimônio Vivo, como também recebem uma bolsa mensal. Contudo, o verdadeiro valor desse reconhecimento está na prática diária de ensinar, abrir ateliês e compartilhar saberes. O Patrimônio Vivo é, em essência, a resistência da cultura em movimento, uma lembrança de que a arte deve sempre continuar.
Com informações e imagens do Governo de Alagoas.












