O ano de 1912 representa uma cicatriz profunda na história de Maceió, marcada pela violência e intolerância religiosa. O episódio, conhecido como Quebra de Xangô, se consagrou como uma brutal tentativa de erradicar as religiões de matriz africana no estado de Alagoas, refletindo um contexto de perseguições sistemáticas a terreiros, líderes espirituais e seus símbolos sagrados.
Na madrugada do dia 2 de fevereiro, uma onda de destruição varreu a cidade. Milícias invadiram dezenas de casas de culto, demolindo espaços sagrados e queimando objetos litúrgicos em uma praça pública. Nesse cenário caótico, as tradições afro-brasileiras foram violentamente silenciadas: tambores foram quebrados, rituais interrompidos e a voz de mães e pais de santo silenciada, obrigados a ocultar sua fé para sobreviver. Essa violência não afetou apenas os aspectos materiais; ela feriu a dignidade e a ancestralidade de um povo inteiro, impactando conflitos de memória e identidade que reverberam até hoje.
O Quebra de Xangô permanece como um dos episódios mais dolorosos da trajetória alfaiate de Maceió; a perda cultural foi imensurável e devastadora. Para o babalorixá Célio Rodrigues, o impacto desse evento transcende as destruições físicas. “Silenciar os tambores significou a perda de uma parte vital da nossa cultura, um elo direto com nossas raízes ancestrais. Cada instrumento quebrado carregava consigo um significado, um ensinamento deixado pelos nossos antepassados”, explica ele. O medo e a repressão forçaram muitos terreiros a se fechar ou a realizar suas práticas em silêncio, resultando em uma ruptura profunda na transmissão das tradições.
Apesar de um século ter se passado, a lembrança desse episódio serve como um contínuo alerta e uma fonte de força. Pai Célio enfatiza: “A tentativa de acabar com nossa fé não teve sucesso. Ficaram marcas, mas hoje, rezar alto e visivelmente é um gesto político de resistência. Estamos aqui, firmes na nossa espiritualidade, e a cada batida de tambor, clamamos em memória dos que vieram antes de nós”.
Para honrar e preservar essa memória histórica, a Fundação Municipal de Ação Cultural realiza anualmente o evento Xangô Rezado Alto. Esta celebração não apenas recorda a tentativa de silêncio imposta em 1912, mas também reafirma a liberdade religiosa e a identidade das tradições afro-brasileiras em Maceió. Dialogando com os terreiros locais, a fundação compõe um evento que, ao contrário da repressão do passado, ecoa alto como um símbolo de resistência e respeito.
O presidente da Fundação, Myriel Neto, salienta a importância desse evento: “O Xangô Rezado Alto é um ato de reconhecimento e escuta ao povo de terreiro, essencial para a construção de uma cidade mais justa”. Ao transformar o silêncio em som e a dor em uma memória viva, a cidade reafirma que os tambores que um dia foram silenciados em 1912 continuam a soar com força e coragem, preservando a rica tapeçaria cultural afro-brasileira.













